domingo, 27 de março de 2011

Dízimo na Igreja: uma Lei sem Graça

“Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, sim, toda esta nação. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes. E por causa de vós repreenderei o devorador, e ele não destruirá os frutos da vossa terra; e a vossa vide no campo não será estéril, diz o SENHOR dos Exércitos.” – Ml 3.8-11
“E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister.” – At 2.44-45
Oh, tema espinhoso para a igreja evangélica brasileira! Falar sobre dízimos e ofertas, para muitos cristãos, assemelha-se à defesa do time do coração (Corinthians, por favor, afinal é “bíblico”). O tema está tão incrustado no inconsciente coletivo eclesiástico que ai daquele que se interpõe contra esse princípio!
Logo que converti a Cristo e me tornei membro de uma igreja, uma das primeiras (senão a primeira) coisas que aprendi era que, a partir daquele momento, como membro, tinha a obrigação de dizimar, ou seja, de entregar 10% do meu salário para a igreja, isso com base no assustador texto de Malaquias 3.10 e outros, principalmente do Antigo Testamento. Se não fizesse isso, o “devorador” seria lançado sobre a minha vida, roubando minhas finanças. Porém, se cumprisse o princípio, seria grandemente abençoada por Deus, teria minhas finanças multiplicadas 10, 100, 1000 vezes mais. Tentador, não?
Com medo, por um lado, e com ambição, por outro, porém achando que simplesmente queria fazer a vontade de Deus (que, pelo que estava aprendendo, era a de que eu dizimasse), passei a ser dizimista fiel. Mudei de igreja, continuei dizimista. Nunca fiquei com o “nome sujo”, porém nunca tive a tal “prosperidade financeira” que, segundo Malaquias, eu teria e da qual poderia fazer prova de Deus. Deus me dava livramentos e surgia formas de quitar minhas dívidas, mas riqueza nunca tive.
É até engraçado, mas tive mais prosperidade financeira antes de me converter a Cristo. Lembro-me que, seis meses antes da minha conversão, ganhei um carro zero num concurso cultural. Depois de convertida, o máximo que ganhei foi um par de ingressos para o show da Madonna no ano passado, mas aí já não era dizimista fiel (mas ganhei os ingressos!).
Alguns meses depois de me converter, lembro-me que fui a um “encontro apostólico”, onde vários pastores famosos pregaram. Na pregação da noite, um fulano foi pregar sobre as ofertas. Foi muito enfático, colocou quilos de culpa em mim e creio, em quase toda a platéia, e ainda disse que, caso déssemos naquele momento nosso “tudo”, até dezembro daquele ano (Deus estava lhe revelando) teríamos três desejos que o Espírito Santo estaria colocando em nosso coração realizados. Para provar que era real, deveríamos, naquele momento, escrever no verso de nossas bíblias os tais desejos. Eu os escrevi, e que aflição! não tinha levado meu talão de cheques!!! Como sempre ando sem dinheiro, tudo passo no cartão de débito, não tinha nada a ofertar!!!! E aí, como faria?
Chorando em baldes, cabeça baixa, vi meu relógio, que havia ganhado do meu então namorado (hoje marido). Não pensei duas vezes: vai o relógio como oferta mesmo. Fiquei meses sem relógio e sem lhe explicar onde estava, depois ele acabou me dando outro (entendeu minha meninice espiritual), o ano de 2002 acabou e os desejos não se realizaram. Mas continuei dizimista fiel e ofertante de vez em quando, quase sempre dizimando do limite do meu cheque especial, às vezes dizimando com cheque sem fundos, correndo atrás do meu pai para cobri-lo. Mas sempre dizimista fiel, pois os pastores sempre diziam que não importavam as dificuldades financeiras, elas eram armadilha de satanás para que não dizimássemos, e então o devorador pudesse vencer a batalha.
Anos dizimando e ofertando, e nada dos 10, 100 ou 1000. Daí aprendi um outro discurso: a prosperidade não é ter em abundância, mas é ter saúde e não faltar nada. Achei justo, na verdade queria só servir a Deus, então estava muito bom. E continuei dizimando, já fazendo empréstimo para cobrir os cheques, afinal o importante era devolver a Deus a parte Dele. A igreja crescia, se reformava, os pastores se tornavam mais inacessíveis, minha dívidas cresciam, mas o importante é servir a Deus e ter saúde.
Até que um dia eu tive que resolver: ou dizimava, ou pagava as dívidas do mês. Com muita culpa e sofrimento, paguei as dívidas. Dizimava quando podia no começo, depois deixei de dizimar de uma vez, pois estava para me casar, comprando e equipando o apartamento, e só quem já casou sabe o quanto se gasta. Por incrível que pareça, Deus continuou me dando os livramentos financeiros, e ebenezer! até aqui Deus tem milagrosamente nos sustentado.
O casamento, eu sempre sonhei que fosse numa igreja. Infelizmente não foi pois, apesar de membro, tinha que pagar uma quantia, afinal a igreja tinha que arcar com a “segurança” do evento (acredite se quiser). A cerimônia foi na casa da minha mãe, que pela Graça de Deus é bastante espaçosa. Peço a Deus sempre para tirar de mim essa ferida, mais uma, que a igreja evangélica me fez: a de, por dinheiro, me negar a realização de um sonho de infância, sonho de qualquer menina, e do sonho de meu pai, que nem crente é, de entrar na igreja de braços dados com sua única filha. O chato é a igreja em questão nem precisaria disso, afinal é rica, sede própria, comprou acampamento, teve até programa de tevê numa emissora UHF. Meu marido até já estava pregando lá, mas meu filho, “amigos, amigos, negócio$ à parte”.
Hoje não sou dizimista. Aliás, nem estou frequentando nenhuma igreja, e se estivesse, não seria dizimista. Daria contribuições voluntárias, talvez nem na igreja, mas para os irmãos-de-banco. Lembro-me, nesses anos todos, de muitas vezes em que dei meu dízimo com dificuldade, e ao meu lado havia irmãos ainda mais necessitados, mas que não recebiam nada da igreja (quando muito, uma cestinha básica e olha lá, você tem que se manter, se não tem emprego ou está doente é porque não tem fé, só poderemos ajuda-lo até o próximo mês para não acostumar). Uma vez, ao nosso lado havia uma irmã que volta e meia manifestava demônios. Meu esposo olhou de relance para sua mão e a viu toda queimada, em carne viva, isso durante o culto. Ele, que é técnico em enfermagem, mal acabou o culto e fomos correndo à primeira farmácia que encontramos, para comprar um remédio específico. Compramos o remédio e na saída um ônibus quase destruiu nosso carro, mas para a honra e glória de Deus ninguém se feriu. Ficamos com o prejuízo do carro, mas com a alegria de ver nossa irmã em Cristo com suas feridas cicatrizadas dias depois. Pergunto-me: se dependesse da igreja-templo, onde ela também dizimava com dificuldade, ela seria provida?
Em outras oportunidades também pudemos prover pessoas da igreja que, apesar de membros, não tinham suas necessidades materiais observadas, como se bastasse a nós viver do amor de Cristo (porém, o templo sim necessitando de provisão, de pagamento de água, luz, telefone, aluguel e salário dos pastores). É incrível ver o milagre de Deus, de multiplicar o pouco para que esse seja dividido entre os irmãos, assim como Ele multiplicou os pães e os peixes!
Em Atos, vemos que não havia a obrigatoriedade do dízimo, mas todos contribuíam e tinham tudo em comum. Em Atos, a igreja se supria pois todos sabiam da importância de sua contribuição, e contribuiam não buscando as bênçãos financeiras, ou a amarração dos devoradores, mas simplesmente o bem-estar de todos e o servir a Deus, amando ao próximo como a nós mesmos. Quem podia dar mais dava, quem podia dar menos o fazia. Uma vez li um livro chamado A Igreja do Caminho, do Jack Hayford, onde ele relatava que na hora das ofertas passavam o gazofilácio entre os fiéis. Quem podia contribuir, contribuía; quem estava em dificuldades financeiras, tirava a contribuição. O engraçado, segundo conta no livro, é que sempre havia sobras no gazofilácio! Será que alguma igreja evangélica brasileira teria coragem de fazer isso?
O problema da igreja brasileira é que obriga os fiéis a crerem que Deus proverá, mas ela mesma não crê nessa hipótese. Por isso muitas vezes gasta-se quarenta minutos (como já vi) colocando culpa sobre os fiéis que não dizimam ou ofertam, e trinta minutos com a pregação da Palavra. Por isso exige-se o cumprimento de uma Lei como o dízimo, mas fecha-se os olhos para outras Leis, como a circuncisão ou o guardar o sábado. Infelizmente, falta fé aos pastores quanto a Deus garantir-lhes a subsistência, e por isso necessita-se buscar o suprimento pela aterrorização dos crentes.
O motivo de escrever esse artigo, na verdade, era o de simplesmente colocar à disposição de todos o maravilhoso estudo sobre dízimos do blog Bereianos, mas acho que as feridas que essa doutrina trouxe a mim ainda estão latentes, e por isso precisei expô-las. O estudo é bastante longo, porém não tenha medo, leia-o pois valerá a pena. Deveria ser leitura obrigatória não só para os crentes, mas principalmente para os pastores, pois muitos reproduzem a doutrina do dízimo simplesmente porque aprenderam assim, não se dando conta da importância de se estudar a Palavra dia e noite, não se aceitando doutrinas sem que sejam provadas.
O bom de se viver na Graça é que não precisamos mais cumprir a Lei: Jesus a cumpriu por nós. Aleluia!

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